O que funciona - e o que não dá certo - na atenção primária da rede privada

Ao utilizar de forma inteligente esse modelo de cuidado, é possível fazer dele o centro de todo o planejamento de saúde de um sistema eficiente e focado em mais valor para o beneficiário

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A iniciativa não é recente, lá se vão cinco anos desde que a rede privada de Saúde começou a investir fortemente em atenção primária, com o objetivo de achatar a curva de gastos com o cuidado e melhorar a experiência do beneficiário Para tanto, dois movimentos foram bastante adotados pela atual gestão de operadora de Saúde: o estímulo ao crescimento da rede de médicos de família,  e a chegada ao mercado de organizações consolidadas nesse novo modelo de negócios.  

Para Zeliete Linhares Leite Zambon, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), tal prática é benéfica pois propõe um modelo de cuidado que visa valorizar a trajetória do paciente para que ele tenha suas necessidades de fato atendidas. E isso, claro, com a vantagem de contribuir na diminuição de custos para a gestão da operadora de Saúde.  “A atenção primária provoca um aumento de valor na Saúde enquanto diminui a sinistralidade, o que é excelente para a operadora. Mas é preciso fazer isso da forma correta, ou seja, contratando especialistas na área tanto para assistência quanto para gestão.” 

O que tem funcionado bem… 

Além da escolha por profissionais da Saúde treinados e bem capacitados, a adoção da atenção primária pela gestão da operadora de Saúde passa pelo convencimento dos pacientes de que esse é um serviço útil e benéfico. Zeliete, no entanto, diz que muitos beneficiários já percebem as vantagens: “As pessoas hoje querem receber orientação sobre qual caminho seguir, sem gastar tanto tempo com idas e vindas aos serviços de saúde nem com tentativas e erros sobre qual médico especialista devem consultar para resolver seus problemas.” 

“O beneficiário quer hoje um médico que coordene a sua jornada de saúde, sem gastar tanto tempo com idas e vindas ao pronto-socorro. E isso ficou ainda mais visível na pandemia, principalmente com a telemedicina em alta”

Zeliete Linhares Leite Zambon, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) 

 A expectativa é que, com a popularização desse tipo de medicina, aumente ainda mais a necessidade de contratação de médicos de família  e comunidade, que são os profissionais mais especializados na atenção primária à Saúde. “Hoje são cerca de dez mil médicos especialistas nessa área no Brasil e, só para atender a demanda no serviço público, precisaríamos de mais de 60 mil profissionais, sem contar a necessidade do serviço privado, da gestão e das áreas de ensino e pesquisa.  Hoje, esse número só se multiplica”, conta Zeliete. 

… e as iniciativas que não deram certo 

Para a presidente da SBMFC, ainda é preciso mais tempo para avaliar o que não está funcionando bem na atenção primária na rede privada. “Já vimos operadoras que fizeram grandes investimentos para a atenção primária ser um de seus carros chefes, mas, depois, a iniciativa murchou, pois a gestão da operadora de Saúde mudou o rumo.”  

Talvez ainda falte a todos os atores envolvidos estar mais familiarizados com essa nova forma de praticar a medicina, na qual a doença em si perde o papel principal do cuidado. “A atenção primária reduz o consumo de exames diagnósticos, de medicamentos, de internações e essa são algumas das ‘vantagens’ que muitas operadoras acabam ‘vendendo’ como benefícios”, analisa Zeliete.  

“Acredito que vai chegar o momento que irão prosperar as empresas que de fato fizerem da atenção primária à Saúde o seu carro-chefe, valorizando a trajetória do seu cliente no cuidado à Saúde e lhe dando acesso para realizar ações preventivas para a saúde física, psíquica, emocional e espiritual, tudo isso a partir de recursos da Saúde Digital 

Zeliete Linhares Leite Zambon 

Portanto, para a iniciativa funcionar bem, é preciso - antes de tudo - ocorrer uma verdadeira mudança nesse paradigma, com a troca do consumo estimulado pela doença para um consumo em prol da saúde. “Fazendo uma analogia do corpo humano com um carro, é como planejar revisões periódicas antes de esperar qualquer defeito. Só com esse tipo de cuidado dá para contar que o automóvel tenha vida longa mantendo a mesma eficiência. E com o nosso corpo é igual. Ao fazer ações preventivas periódicas e cuidar dos problemas assim que eles surgirem, dá para evitar que eles se tornem grandes e provoquem perdas ou necessidade de reabilitações”, justifica Zeliete.  

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