O impacto das 7 jornadas transformacionais na Saúde Digital

A transformação digital que vai impactar verdadeiramente o setor já começou com investimentos em tecnologia de infraestrutura. Agora, é hora de ir além, em busca de inovação e legado

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Não há dúvida que a pandemia do coronavírus acelerou a transformação digital, na Saúde. Entre os principais investimentos em tecnologia na Saúde nos últimos meses estão gestão de processos, uso de analytics, além de portais de resultados e de agendamentos de consulta online para melhorar o atendimento ao cliente.  

Conforme um relatório da International Data Corporation (IDC), com a melhoria da pandemia, nove outras grandes jornadas transformacionais estão prestes a acontecer.  

Saiba em que estágio elas estão no Brasil, segundo o professor Renato Sabbatini, biomédico PhD com mais de 50 anos de experiência, diretor eleito do working group education da American Medical Informatics Association (AMIA), membro da International Association of Medical Informatics (IMIA) e professor adjunto de Informática em Saúde da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (BA).   

  1. Conectividade - Hoje, até mesmo hospitais de pequeno e médio porte e que estão afastados dos grandes centros urbanos têm acesso à conectividade usando bandas de internet provenientes de satélites de baixa órbita. Com o advento do 5G, devemos observar uma maior confiabilidade no uso da nuvem e no acesso aos sistemas. No entanto, um obstáculo possível a essa melhoria será a segurança da informação em Saúde.  
 

  2. Inovação digital - Atualmente ela costuma ser importada de outros países e, por isso, ainda requer um período de maturidade e adoção mais longo. Um exemplo é a tecnologia de chatbot para atendimento ao cliente, que não funciona bem e ainda gera muitas reclamações entre usuários.  


 

 Renato Sabbatini:  “Sem capacitar quem vai usar a tecnologia nada dará certo”  
 

  1. Inovação em operações - É importante ter claro que as operações mudam drasticamente quando a instituição começa a usar certificados digitais, computação distribuída, nuvem e um ecossistema baseado em conectividade avançada e uso de uma maior inteligência artificial.  Investir nessa estrutura custa caro, mas é preciso ter uma mudança de paradigmas dentro das instituições para que o modo de operação seja adaptado profundamente a partir da transformação digital. Isso ainda não ocorre na Saúde  Pública e acontece em poucas organizações da Saúde Privada.  
 

  2. Experiência do paciente - A área progrediu a partir do desenvolvimento de apps que podem ser acoplados em sistemas de gestão hospitalar para captura de dados, mas ainda falta o engajamento do próprio paciente nesse tipo de ação na qual ele mesmo contribui para a construção de seu prontuário eletrônico. Também é bastante incipiente a possibilidade de pacientes editarem os dados do PEP, com base na LGPD, e para que isso se torne mais acessível requer um investimento em interoperabilidade dos sistemas. Nos EUA, por exemplo, existe o Blue Button, na qual o próprio paciente consegue fazer um download de seu prontuário de acordo com a sua seleção, ou usar o Open Notes, para que possa interagir com o documento.   
 

  3. Infraestrutura digital - Essa área talvez seja a menos problemática pela redução do custo da tecnologia nos últimos meses, como a da implantação de uma rede local de banda larga. Hoje, soluções como teleconsultas, teleinterconsultas, teletriagem e uso do PEP na nuvem são problemas facilmente resolvidos de forma banal.  
 

  4. Futuro do trabalho - Embora tenha ocorrido um impacto pela implantação recente da telemedicina, graças a regulamentação do CFM recém-aprovada e à discussão da lei federal que regulariza a prática, esses recursos tecnológicos devem perdurar. Com a possibilidade de o profissional de Saúde poder trabalhar remotamente também devem surgir especialidades de telemédicos que não precisam mais estar dentro da instituição de Saúde. É o caso da telerradiologia, cujo laudo diagnóstico pode ser emitido de qualquer lugar do mundo. Um ponto de atenção é que essa facilidade afeta a jurisdição territorial desses documentos; nos EUA, por exemplo, 50% dos laudos provêm da Índia, uma vez que os sistemas são certificados internacionalmente. Mas no Brasil ainda não existem inovações nesse sentido.  
 

  5. Certificação digital - Acreditações hospitalares, como a ONA e a Joint Commission International, já são bem estabelecidas para certificar hospitais e serviços de excelência. Na área da Informática em Saúde, o Electronic Medical Record Adoption Model (EMRAM), da HIMSS, é o que garante a chamada certificação de processos, mas o número de instituições que a procuram ainda é muito baixo, mesmo em hospitais níveis 6 (sem papel) e 7 (digital). É preciso uma maior conscientização em relação à importância dessas certificações, pois isso discorda de práticas adotadas em países europeus e EUA, onde a falta dessas certificações impede até que prestadores tenham contratos com planos de saúde.    


É certo que a transformação digital ainda não é majoritária e efetiva a todo Sistema de Saúde brasileiro e entre os motivos estão a falta de investimentos necessários e a falta de conhecimento dos gestores em soluções digitais. “Até mesmo por causa da pandemia, muitas empresas, desde planos de Saúde que perderam beneficiários até provedores de serviços que viram a demanda eletiva cair muito, foram descapitalizadas e só agora estão conseguindo retomar os investimentos em tecnologia”, contextualiza Sabbatini. Para o especialista, talvez um passo anterior a esse movimento seja o de investir naquilo que ele chama de transformação do profissional. “Sem capacitar quem vai usar a tecnologia nada dará certo.” 

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